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MEMORIZAÇÃO
MEMORIZAÇÃO

 

 

"Assim como há causas para todo o sofrimento humano,

existe, também, um meio pelo qual ele pode findar."

Sabedoria de Buda

 

MAIO 2015____________________________

Como desmontar o ódio social

*Leonardo Boff

 

As igrejas, os grupos de reflexão e ação e, especialmente, a mídia e todas as pessoas de boa vontade podem colaborar no desmonte desta carga negativa.

Estamos constatando que vigora atualmente muito ódio e raiva na sociedade, seja pela situação geral de insatisfação que perpassa a humanidade, mergulhada numa profunda crise civilizacional, sem que ninguém possa dizer como seria a sua superação e para onde este voo cego nos poderia conduzir. O inconsciente coletivo detecta esta mal-estar como já antes Freud o descrevera em seu famoso texto O Mal-estar na Cultura (1929-1930) e que, de alguma forma, previa os sinais de uma nova guerra mundial.

O nosso mal-estar é singular e se deriva das várias vitórias do PT com suas políticas de inclusão social que beneficiaram 36 milhões de pessoas e elevaram 44 milhões à classe média. Os privilegiados históricos, a classe alta e também a classe média se assustaram com um pouco de igualdade conseguida pelos do andar de baixo. O fato é que, por um lado vigora uma concentração espantosa de renda e, por outro, uma desigualdade social que se conta entre as maiores do mundo. Essa desigualdade, segundo Marcio Pochmann no segundo volume de seu Atlas da Exclusão Social no Brasil (Cortez, 2014) diminuiu significativamente nos últimos dez anos, mas é ainda muito profunda, fator permanente de desestabilização social.

Como notou bem o economista e bom analista social do partido do PSDB Luiz Carlos Bresser Pereira, o que foi assumido em sua coluna dominical (8/3) por Veríssimo, tal fato fez surgir um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos a um partido e a um presidente, não é preocupação ou medo, é ódio. A luta de classes voltou com força, não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita.

"Os privilegiados históricos, a classe alta

e também a classe média

se assustaram com um pouco

de igualdade conseguida

pelos do andar de baixo.

O fato é que, por um lado vigora

uma concentração espantosa

de renda e, por outro, uma desigualdade

social que se conta entre as maiores do mundo."

Estimo correta esta interpretação que corrobora o que escrevi neste espaço com dois artigos "O que se esconde atrás do ódio ao PT". É a emergência de milhões que eram os zeros econômicos e que começaram ganhar dignidade e espaços de participação social, ocupando os lugares antes exclusivos das classes beneficiadas. Isso provocou raiva e ódio aos pobres, aos nordestinos, aos negros e aos membros da nova classe média.

O problema agora é: como desmontar este ódio? Uma sociedade que deixa esse espírito se alastrar, destrói os laços mínimos de convivência sem os quais ela não se sustenta. Corre o risco de romper o ritmo democrático e instaurar a violência social. Depois das amargas experiências que tivemos de autoritarismo e da penosa conquista da democracia, devemos, por todos os modos, evitar as condições que tornem o caminho da violência. incontrolável ou até irreversível.

Em primeiro lugar, na linha sábia de Bresser Pereira, faz-se urgente um novo pacto social que vá além daquele criado pela constituição de 1988, pacto que reúna empresários, trabalhadores, movimentos sociais, meios de comunicação, partidos e intelectuais que distribua melhor os ônus da superação da atual crise nacional (que é global) e que, clararamente convoque os rentistas e os grandes ricos, geralmente articulados com os capitais transnacionais, a darem a sua contribuição.

Deve-se mudar não apenas a música, mas também a letra. Em outras palavras, importa pensar mais no Brasil como nação e menos nos partidos. Estes devem dar centralidade ao bem geral e unir forças ao redor de alguns valores e princípios fundamentais, buscando convergências na diversidade, em função de um projeto-Brasil viável e que torne menos perversa a desigualdade, outro nome para a injustiça social.

Estimo que amadurecemos para esta estratégia do ganha-ganha coletivo e que seremos capazes de evitar o pior e assim não gastar tempo histórico que nos faria ainda mais retardatários face ao processo global de desenvolvimento social e humano na fase planetária da humanidade.

Em segundo lugar, creio na força transformadora do amor como vem expresso na Oração de São Francisco: onde houver ódio que eu leve o amor. O amor aqui é mais que um afeto entre duas pessoas; ele ganha uma feição coletiva e social: o amor a uma causa comum, amor ao povo como um todo, especialmente, àqueles mais penalizados pela vida, amor à nação (precisamos de um sadio nacionalismo), amor como capacidade de escutar as razões do outro, como abertura ao diálogo e à troca.

Se não encontrarmos nem escutarmos o outro, como vamos saber o que pensa e pretende fazer? Aí começamos a imaginar e a projetar visões distorcidas, alimentar preconceitos e destruimos as pontes possíveis que ligam as margens diferentes.

Precisamos das mais espaço à nossa cordialidade positiva (pois há também a negativa) que nos permite sermos mais generosos, capazes de olhar para frente e para cima e deixar para trás o que ficou para trás e não deixar que o ressentimento alimente a raiva, a raiva o ódio e o ódio, a violência que destrói a convivência e sacrifica vidas.

As igrejas, os caminhos espirituais, os grupos de reflexão e ação, especialmente a mídia e todas as pessoas de boa vontade podem colaborar no desmonte desta carga negativa. E contamos para isso com a força integradora dos contrários que é o espírito criador que perpassa a história e a vida pessoal de cada um.

 

          Leonardo Boff escreveu: A oração de São Francisco: uma mensagem de paz para o mundo atual      - Vozes 2013; Artigo publicado no jornal Diário da Manhã, Caderno Opinião Publica, Goiânia, 17/3/2015.

 

 

  

 

ABRIL 2015___________________________________

 

Minhas notas de repúdio

*Rogério Borges

rogerio.borges@opopular.com.br

Agora virou moda repudiar! É um dos verbos mais flexionados dos últimos tempos. Um dos seus mais recentes usos foi dado pela Frente Parlamentar Evangélica, que decidiu "repudiar" um beijo de novela, vejam vocês! Fico pensando cá comigo se não há nada mais importante, nada mais proveitoso que repudiar. E não é que há? Ao invés de implicar com os selinhos entre Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, atrizes de tantas glórias e orgulhos para as artes cênicas e a cultura brasileira, os nobres deputados e senadores poderiam me acompanhar em outros repúdios.

"Repudio gente fanática que quer 

impor suas crenças e convicções

pessoais aos outros na marra."

REPUDIO a mordomia de políticos que dia desses queriam que pagássemos passagens aéreas de suas nobres esposas para ficarem indo e voltando, indo e voltando, indo e voltando de Brasília. Será que estão nos achando com cara de programa de milhagem?

REPUDIO um monte de auxílios dados a vários cargos do Judiciário. Tem até um auxílio-livro, coisa que, aliás, os professores, que de fato precisariam dessa ajuda, não têm.

REPUDIO, por falar nisso, a falta de respeito com os professores, que viram dia desses um edital do governo estadual convidando-os a fazer um concurso que pagava vencimentos abaixo do salário mínimo. "Mas, está na lei", dizem alguns. Pois então, REPUDIO essa legislação e a ausência de uma iniciativa que revogue tal vergonha.

REPUDIO gente fanática que quer impor suas crenças e convicções pessoais aos outros na marra, como se todos nós, obrigatoriamente, tivéssemos que concordar com suas posições, criando faltas divisões e encontrando oportunidades para esparramar ódios e preconceitos.

REPUDIO quem se faz de santo.

REPUDIO quem se faz de besta.

REPUDIO quem pede o fim da corrupção, mas a promove diariamente nos pequenos gestos.

REPUDIO quem acredita que é na base da violência, física ou verbal, que se resolve tudo.

REPUDIO quem não sabe ganhar, como também REPUDIO quem não sabe perder.

REPUDIO gente que arrota erudição para humilhar seus intelocutures, mostrando que o indivíduo pode até ser bastante instruído, mas totalmente ignorante sobre aquilo que realmente importa.

REPUDIO quem desfila um rosário de lugares-comuns, que chafurda na opinião fácel e acrítica e posa de grande pensador, exigindo para sua obra um valor que ela não tem.

REPUDIO quem adora a própria voz.

REPUDIO quem explora a inocência alheia.

Por fim, não menos importante...

REPUDIO as calças saruel, que disputam com as ombreiras o título de invenção mais medonha do mundo da moda em todos os tempos.

REPUDIO filmes dublados no cinema. Tiram todo o clima da produção e a gente fica sem saber nem como é a voz verdadadeira do Robert DeNiro e da Meryl Streep.

REPUDIO tintas das colorações acaju e preto asa-da-graúna, sobretudo quando usadas em cabelos ralos de senhores que tomam leite e pensam que são gatinhos.

REPUDIO palestras motivacionais, que não motivam ninguém, apenas quem as realiza.

REPUDIO café frio e chope quente.

E REPUDIO patrulhas de todas as naturezas.

 

Rogério Borges publica na coluna À Margem, jornal O Popular, Goiânia, 26 de março de 2015.

  

 MARÇO 2015__________________________________

 

Seria o pós-iluminismo uma pré-escuridão?

 

*Edival Lourenço

edivallourenco@gmail.com

 

"Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las." Este manta iluminista do filósofo Voltaire está, desde o século 18, estampado no para-choque do caminhão dos ideais libertários. Sobre  a  sátira, um  dos  modos de exercício dessas liberdades, espécie de abre-alas para a abertura mental, outro iluminista emérito de nome Rousseau afirma: "Nunca se conseguirá ser sábio se primeiro não se foi traquinas."

"Mitigar a liberdade de expressão

é puxar um enorme toldo de lona

preta sobre a civilização"

O senso de humor é que azeita as engrenagens sociais. Sem ele, tudo emperra e prevalece a noção de blasfêmia, de liberdade contida, de politicamente correto, de liberdade de expressão sãoi exercida com responsabilidade. Ou seja: limita-se a leierdade de expressão e ela definha. Deixa de existir. Não existindo, as demais liberdades, como numa cadeia ecológica, acabam desaparecendo. Inclusive a liberdade de religião, que inclui a se não ter religião alguma.

Depois do ataque ao jornal Charlie Hebdo, de Paris, a questão da liberdade de expressão voltou à baila com paixão e fúria. E muito pouca razão. Pelo que tenho visto na mídia, a maioria dos manifestantes, de professores, filósofos, escritores a chefes de Estado, como o papa Francisco, que além de chefe de Estado é religioso, têm optado por um conceito de liberdade de expressão pré-iluminista, "exercida com responsabilidade". Numa noção regressiva e latifundiária: o meu direito termina onde começa o seu. Como cercas divisórias de fazendas. Algo esdrúxulo em uma sociedade complexa que se pensa republicana, que postula a democracia, com obrigações em condomínios, direitos coletivos, difusos e homogêneos.

Liberdade de expressão está mais para o ar que respiramos que para a divisa de terras dos antigos latifúndios, feudos e sesmarias. Minha porção de ar não termina onde começa a sua. O ar que respiro pode ter acabado de vir dos pulmões do vizinho, da combustão do motor, da flatulência do cavalo do carroceiro. Charge de Maomé ou Cristo é a flatulência do cavalo que religiosos têm de respirar sem querer matar o cavalo ou o carroceiro. Liberdade de expressão é a precondição para o exercício de outras liberdades. É como a respiração do ar que garante outras funções da vida. Sem liberdade de expressão que alargue os horizontes mentais, não há liberdades individuais, direitos humanos, segurança jurídica, nada desses luxos democráticos. Liberdade de expressão é cláusula pétrea de qualquer contrato social democrático. A tentação de controlar a circulação das ideias é um risco que nos espreita.

Mitigar a liberdade de expressão é puxar um enorme toldo de lona preta sobre a civilização e estabelecer a obscuridade. Abrem-se caminhos para regimes totalitários, estados teocréticos e absolutistas, sitemas fascistas de gestão política que muitas dores de cabeça já trouxeram. Mirem-se nessa frase de alerta reproduzida no museu de Auschwitz: "The one who does not remember history is bound to live through it again" (George Santanyana). Tradução livre: "Quem não conhece a história está condenada a repeti-la." Portanto, tomemos as devidas precauções. Repito: não podemos confundir direito de expressão com a noção intuitiva de direito de latifúndio: minha fazenda termina onde a sua começa. Direito de expressão é como o ar: está em toda parte e é o direito garantidor dos demais direitos.

 

                                                                                                  Edival Lourenço escreve para o jornal O Popular, Crônicas e Outras Histórias, Goiânia, 6/2/2015.

 

  

ARTIGO EXTRAORDINÁRIO_- Fevereiro 2015_________

 

Um copo meio cheio ou meio vazio

 

*Silvana Bittencourt

 

      Depois que a cegueira se espalha comoo um epidemia começa o despertar do lado mais tenebroso do ser humano. Sem rumo, as pessoas abandonam a razão e entregam-se aos seus instintos mais selvagens em busca da sobrevivência. Saques, perversão, roubos, desconfiança prosperam em meio à fome, às doenças, às dores, aos odores e ao fim dos pudores. Diante do desespero, vale a regra do cada um por si. "Mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos".

   Quem teve a oportunidade de ler ou assistir ao filme Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, tem a dimensão do inferno que ele apresenta a seus leitores e espectadores depois que a "treva branca" se dissemina, confrontando os homens om sua essência assustadora. São relatos pavorosos, temperados pela ficção de uma epidemia absurda e da maldade sem limites.

     Por mais bárbara que a história pareça, a obra tem simbologia fortíssima e pode servir como uma metáfora apropriada em tempos de cegueira e de esgotamento de um recurso do qual depende nossa dignidade. Com água escassa, começam a ficar comprometidas a saúde, a higiene, a economia, a alimentação, a vida. E é preciso muita calma, responsabilidade e razão para que a dignidade não escorra junto pelo ralo.

   Difícil não lembrar de Ensaio sobre a Cegueira quando surgem notícias como a publicada domingo no jornal Folha de São Paulo, mostrando que moradores de um edifícxio da capital paulista estão "escutando" canos para vigiar o tempo de duração do banho e a quantidade de vezes que a descarga é acionada pelos vizinhos. "Estão sendo observados, através do encanamento, banhos com mais de 30 minutos e descargas acionadas insistente e ininterruptamente", diz um cartaz espalhado pelo condomínio. Ou quando escolas municipais proíbem os alunos de escovar os dentes, para economizar água.

    O livro de Saramago também vem à memória quando a televisão mostra cidadãos paulistas desesperados estocando galões de água mineral, baldes e tinas para guardar água da chuva - reservatórios caseiros que, por sua vez, estão agravando os surtos de dengue no Estado, que já deixaram nove cidades em situação de emergência.

    As coincidências continuam entre vida real e obra literária no trecho em que o governo tranquiliza a população, garantindo que a situação está sob controle. "No segundo dia falou-se de haver uma certa diminuição do número de novos casos, passou-se das centenas às dezenas, e isso levou o governo a anunciar prontamente que, de acordo com as mais razoáveis perspectivas, a situação não tardaria a estar sob controle". Não foi o que aconteceu.

    Não foi tampouco o que aconteceu por aqui, em terras brasileiras, onde também o governo assegurou que não havia motivos para preocupação. Despreocupados, os consumidores não mudaram seus hábitos, continuaram usando água como se ela caísse do céu sempre que necessário. Afundados na cegueira e na falta de transparência dos administradores, não enxergamos que essa situação vem sendo construída há décadas. O copo meio vazio sempre esteve meio cheio na visão de quem não queria comprometer seu futuro político. E assim comprometeram a vida.

     Na última página de Ensaio sobre a Cegueira, Saramago ensina mais uma vez, como se estivesse por aqui, em pessoa, observando aqueles desertos desoladores em que se transformaram nossos lagos, rios e reservatrórios. "Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem".

 

 Silvana Bittencourt é colunista

do jornal O Popular, Goiânia-GO.

 

 FEVEREIRO2015______________________

 

Nova direita ou velha direita?

*Flávio R. Kothe

 

    Há pessoas de boa vontade que perguntam como era o período em torno de 1964, se o Brasil estava então em condições de ser uma nova Cuba, se o que está acontecendo hoje, com uma parte da direita não aceitando ter perdido as eleições presidenciais, ainda ecoa o que vem de meio século atrás. Quando se fica mais idoso, às vezes a gente não se dá conta de que os jovens não viveram o mesmo, só "ouviram falar". É bom que os jovens não passem as dificuldades do que eram jovens em 64. A luta travada contra a ditadura tem então sentido, embora existam os que lembram com saudade "daqueles bons tempos". Na imprensa não havia notícias de corrupção porque era censurada, depois ps processos foram engavetados.

    Na época de 1964, preponderava o autoritarismo oligárquico, o controle de cima para baixo, de fora para dentro. Estava-se então no início de uma democratização, com inclusão social, tolerância, igualdade. A democracia não faz parte da tradição brasileira, seja no período colonial, imperial, na República Velha ou na ditadura Vargas. Mesmo com o advento da Constituição pós-guerra, a direita radical era golpista, incapaz de perceber que ampliar o mercado interno aumentaria a mais-valia do empresariado. Progressistas eram minoria. A esquerda estalinista também era autoritária, prepotente, pouco disposta a escutar os outros: achava que tinha a verdade da história, como se a história tivesse um sentido absoluto.

     A governança no Brasil tem tradição oligárquica, que se tornou golpista no século XX quando se viu questionada. Getúlio tomou o poder à força e à força foi dele tirado. Não quiseram deixar Juscelino tomar posse, Lott teve de garantí-la pela força, mas depois não conseguiu ser eleito sucessor. O povo não é a voz de Deus. Jânio representava a direita moralista, queria ter plenos poderes ou nenhum, parecia desequilibrado. Seu vice fora eleito por um partido de oposição, o trabalhista. Não quiseram deixar Jango tomar posse. Brizola, então governador gaúcho,formou a Rede da Legalidade, para exigir que a constituição fosse cumprida.

    Quando a direita viu que a gauchada estava disposta a brigar, inventou o parlamentarismo, que depois foi rejeitado, abrindo caminho para reformas sociais. A direita, com apoio da Igreja Católica, fez campanha para derrubar o presidente, em vez de se preparar para disputar as eleições. Os Estados Unidos haviam perdido o domínio de Cuba em 1959. Havia a Guerra Fria.

   A CIA americana planejou o golpe no Brasil e queria que o país fosse dividido em vários. A Frota Americana estava então em Campos, pronta para invadir o país por Santos. Para impedir a intervenção externa a paretexto da guerra civil, Goulart preferiu o exílio, ao contrário de Allende, que foi morto com arma na mão. De um modo ou de outro, o resultado foi o mesmo: a ditadura militar. Em nome da liberdade, se extinguiu a liberdade; em nome da democracia, a democratização.

   O pretexto do golpe de 64 foi a corrupção e como se alguns exaltados pudessem tomar o poder. Como não há mais "comunistas", a mídia insiste na corrupção, e é bom que o faça, para criar pressão no sentido de que se mude o financiamento de partidos por empresas. Teme-se a democracia. Cada deputado eleito ganha tantos privilégios que ele passa a viver como nababo senhor feudal. Essa "classe" não quer perder seus privilégios.         

    Goulart não tinha apoio nem perfil para ser ditador, ao contrário do que dizia a direita. Esta manipulou a classe média através da mídia e da Igreja, para romper as regras constitucionais. Havia uma mentalidade autoritária por toda a parte, até dentro das casas. As torturas nas prisões e nos quartéis repicaram torturas contra crianças e mulheres em casa.

    No início de 1964, houve setores da esquerda que, prevendo o golpe, se precipitaram, fazendo o jogo da direita, assim como o fizeram as tendências totalitárias de esquerda. Foi gerado um clima para o golpe, organizado por empresários, por setores da Igreja, pela mídia, pela CIA. Provável é que o movimento progressista ganharia as eleições seguintes. Ele faria o que nos últimos anos tem sido política de governo: ampliação da educação, erradicação da fome, reforma agrária, política externa independente, bolsa-escola, alfabetização de adultos, defesa da indústria nacional, mecanização do campo, etc.

    Se o golpe de 64 foi uma regressão política e social, um atraso de meio séculoi, do processo de democratização faz parte o combate à corrupção. Não há uma nova direita golpista. Ela é antiga, que ainda persiste, mesmo usando jovens. Ela não se conforma com a mudança social e política em curso. Relembrar o havido pode servir para se precaver do retorno do pior. Quem só sabe vociferar contra a corrupção gostaria de ter suas benesses.

    O controle tanto da corrupção quanto do golpismo pode levar da atual plutocracia a uma lenta democratização do país.

 

Flávio R. Kothe é professor titular da Universidade de Brasília

 

 

JANEIRO2015________________________________________________

 

Dos sons das trevas

 *Ângelo Cavalcante

 

    Só não vê quem não quer, mas o movimento da direita brasileira e de sua respectiva claque, antipático e desnecessário, é de uma arrogância inominável em seu sempre mesquinho intento de desconstruir Dilma Rousself e seu segundo governo que, por mera lembrança, ainda nem começou. É de uma irresponsabilidade e vulgaridade que ultrapassa as possibilidades de qualquer diálogo.

   Em tempos  outros,  teríamos  pelo  menos reflexões gerais  a  envolver conceitos, perspectivas ou horizontes acerca do segundo mandato de Rousself. Certamente, em um muito remoto mundo de hipóteses, se a banda da direita fosse ao menos um pouquinho mais séria, testemunharíamos críticas mais coerentes e sistematizadas sobre os princípios dos programas, sobretudo, sociais; sobre a necessidade de aprofundamento das reformas; sobre a coerência e a densidade das políticas econômicas de governo centradas no mais torpe monetarismo e que são feitad, tão somente, para gracejar o insaciável setor bancário; o imperativo da produção de rupturas pela via democrática onde temas como a função social da propriedade, o limite para os patrimônios privados, a elevação e os necessários ganhos para o salário mínimo e que carece de ser resguardado e ampliado viriam com força e centralidade; a redefinição econômica de estados e municípios para o estabelecimento de novo federalismo para este País que vê suas desigualdades sendo intensificadas, dentre outros debates importantes  e que precisamos, todos nós, fazermos.

    Ocorre  que  na  verdade  mais  pura   e  cristalina,  essa  patuleia  quer mesmo é atrapalhar, fazer chacota e tornar pior o que já é muito ruim: a formação política da gente brasileira. Não é de se admirar que, mesmo em meio a pior crise econômica que o mundo já viu desde 1929, onde o Brasil é alvo preferencial de especuladores, financistas e nações imperialistas, ainda assim, os gaiatos de plantão acham tempo e inspiração para, por exemplo, discutirem por horas a fio as indumentárias da Presidente da República?

    É surreal o comportamento político da direita brasileira. Quando não estão babando ódio contra o ainda incipiente e bastante necessário Estado democrático de direitos que, como se bem sabe, custou milhares de vidas brasileiras, quando não estão esbravejando apologias às tiranias militares que arruinaram a economia nacional por duas intermináveis décadas, submergem para os abismos da frivolidade, do miúdo e do cacoete subpolítico e de importância nenhuma, de qualidade alguma e de decência zero.

    Não por acaso! Afinal, é  ali, na treva, no  abissal  do "vale  tudo" que essa gente é boa de serviço. É na ausência de regras, limites e normas que essas criaturas miasmáticas se realizam em toda a plenitude de suas respectivas misérias existênciais. É ali, o "onde" e que ninguém vê, ninguém sente ou dialoga que essas bestas humanas produzem a baila do horror, do absurdo e do desagradável.

    De outro modo, me assusta que pessoas sérias e bem intencionadas ainda percam tempo querendo entender uma gente com a cabeça plantada nas piores e mais deletérias experiências de nossa acidentada vida política nacional e que se ufanam da morte, do atraso econômico e da ausência de direitos humanos.

    *PS: Dilma estava deslumbrante, muito bem-vestida e elegante onde combinou cores suaves e delicadas com os rigores climáticos da savana brasileira e o melhor, sem abrir mão da força de sua personalidade forjada em mais de 40 anos de vida pública.

 

 

Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando na Universidade

de São Paulo - USP, professor da Universidade Estadual de Goiás - UEG.

 

 

    

 

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