Comportamento
Comportamento

Janeiro 2015

 

Alguns cacoetes de nossa época

 

*Edival Lourenço

 

 

"A parte

revisionista

desse pessoal já

tentou dar uma

rasteira no

Monteiro Lobato"

 

Cada período histórico tem seu cacoete. Os nossos são vários. Valorizar mais o ter do que o ser, priorizar a comunicação virtual em detrimento do face a face, confundir a maioria dos sentimentos com a necessidade de consumo, acreditar mais no atestado de óbito que no defunto, a proliferação das patrulhas ideológicas.

Dentre tantos, ao que parece, as patrulhas ideológicas são dos mais relevantes e ganharam um apelido pomposo: Politicamente Correto. É um sistema de censura social autoaplicável. Para alguns filósofos, como o britânico John Gray, o tal do politicamente correto é filho legítimo das ideias fascistas e tem nos Estados UInidos, a turma do Tea Party, o lado mais conservador do Partido Republicano, o seu disseminador mais eminente. É um fascismo light. Não existe um órgão controlador para exercer a censura O que há são os seguidores, com algum poder de mando, que acabam por cercear as pessoas que não rezam por sua cartilha. É a apogeu da mediocridade, com recursos inclusive para bancar o salário da intelligentsia. A sabedoria, se bem paga, engraxa as botas da estupidez.

É engraçado os Estados Unidos adotarem essa ideologia. O politicamente correto, esse fascismo light, foi desenvolvido e largamente aplicado na Rússia bolchevique. Bastante difundida no meio artístico e ficou mais conhecida pelo apelido de Realismo Socialista. Por esse modo de pensar, um personagem de romance, por exemplo, não poderia ser mau-caráter se ele fosse um sindicalista. Mas um personagem que fosse patrão não poderia ser caridoso. Nossa experiência nos diz que patrão caridoso é realmente uma coisa rara, mas de sindicalista mau-caráter nossa sociedade está acachapada.

Eu que não sou filósofo, nem possuo o descortino mental de John Gray, mas penso que o tal de politicamente correto deve ter vindo, além do fascismo recente, também das antigas devassas do Santo Ofício, que se imiscuía nas relaçoes privadas e transformava a vida numa teia de delações infernais.

Durante o realismo socialista russo, bem como no Brasil de hoje, se um diretor montar uma peça ou um filme em que o vilão seja integrante de alguma minoria, como negro, ou homossexual, fatalmente vai ter problemas com a patrulha ideológica dos politicamente corretos. A parte revisionista desse pessoal já tentou dar uma rasteira no Monteiro Lobato e até retirar a estátua do Anhanguera, o desbravador de Goiás, lá da praça que leva seu nome, numa tentativa de mudar o passado. Até já reescreveram algumas musiquinhas infantis, como Atirei o Pau no Gato.

Mais dias menos dias, o maior santeiro barroco do Brasil, que ficou carinhosamente conhecido pela alcunha de Aleijadinho, vai ter seu nome trocado pela patrulha para Dificientezinho Fisicozinho. Me parece que ter a referência de aleijado trocada para a de deficiente físico não passa de rasa hipocrisia. Pelo menos foi o que percebi certa vez em que um caseiro que trabalhou pra mim por mais de 15 anos. Ele tem sequelas de paralisia infantil, mas tem um rendimento laboral como qualquer outro trabalhador. Certa vez alguém se referiu a ele como deficiente físico. Ele corrigiu imediatamente: sou aleijado. Mas não sou deficiente, não senhor.

 

Edival Lourenço, Caderno Magazine de O Popular, Goiânia 12/02/2015 - e-mail: edivallourenco@gmail.com

 

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