Contos
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Você acredita em assombração?

Antonio Augusto

   A história e os personagens são verdadeiros. O fato se deu em uma cidade remanescente do período escravocrata chamada Pensilvânia - nada a ver com a cidade natal do Conde Drácula.

  Pois, então, com a falência da economia brasileira, arrastada pela crise mundial nos meados da década de 60, meu vô, Luiz de Melo, 50 anos, alto, magro, bem apessoado, usualmente coberto de linho branco, fino, não importava a ocasião, se viu, de repente, na miséria. Para quem estava acostumado com a fartura, da alimentação aos bens duráveis, a situação foi comparada a uma catástrofe, da qual não seria possível se recuperar.

 Só não ficou literalmente "debaixo da ponte" porque minha tia, uma moçoila de temperamento difícil, mas de coração de ouro, chamada Rose, inventou que havia se "perdido" com um dos rapazes da cidade. Não houve jeito. Naqueles idos era costume "lavar a honra" pagando com bens ou em espécie. E como a família do João dispunha de um velho casarão, construído no auge da escravidão no Brasil, e não desejava ver o nome do infeliz na "boca do povo", entregou o imóvel em troca do silêncio da família Melo. Assim foi consumado o desdito.

   O velho casarão fica situado numa das partes mais antigas da cidade, próximo de uma igreja bicentenária, abandonada pelos padres e pelos fiéis. Sua arquitetura, em estilo barroco, lembra o Brasil Colonial, uma das belezas esquecidas dos lugar. O templo, ladeado por duas torres imponentes, com o tempo adquiriu uma cor cinza, praticamente coberta pelo musgo. A rua dos casarões terminava exatamente no meio da lateral da igreja, que dobrando à esquerda, acabava num largo. E no meio desse estava lá fincado o pelourinho que despertava lembranças tristes. Na minha cabeça de criança de cinco anos, imagens fervilhavam, ganhavam movimentos, cores, sons, cheiros, a partir do que ouvia dos mais velhos... escravos e escravas, adultos, velhos ou crianças sendo chicoteados impiedosamente, muitas vezes até a morte.

  Como o casarão ficava numa esquina, meus avós resolveram abrir um armazém, na tentativa de reviver os anos dourados do comércio de produtos manufaturados, a partir do zero. Minha vó, dona Cema, uma senhora coberta por uma camada adiposa bem distribuída, de baixa estatura, uma típica Dona Benta, aquela do impagável Sítio do Pica Pau Amarelo, exalava generosidade. Toda sorrisos, atendia aos freguezes com carinho e disposição ilimitados. Fazia cálculos matemáticos complexos, de cabeça, sem errar, que deixava todos admirados com sua habilidade. Era quase impossível "passar a perna" em Dona Cema, que além da capacidade de fazer contas tinha, também, dotes culinários invejáveis: doce de leite, curscuz, bolo frito, bolo de farinha de trigo e de fubá, petas, pães e biscoitos de queijo, pães e outras guloseimas... a lista é longa. Fazia quitutes deliciosos e reclamados pelos frequentadores do armazém. Pratos tradicionais que desembarcaram na Província do Centro junto com a família que desceu da Província do Norte. Mas, sua marca registrada, sem sombra de dúvidas, eram os doces e os bolos. 

   Eu adorava vê-la na labuta - como ela mesma dizia -, sem nunca ter presenciado uma alteração, por menor que fosse, do seu humor. Minha vó Cema era a paciência personificada e esse sentimento nobre irradiava de forma generosa. Tinha sempre o ouvido disponível e uma palavra de ânimo, um gesto de carinho, um sorriso contagiante. Jamais a vi contrariada, às vezes em lágrimas, por causa do desgosto provocado por alguns filhos, principalmente, o tio Dovaldo que bebia muito e passava dias e dias na casa da "luz vermelha", gastando o pouco que rendia o armazém. Meu vô, ao contrário, temperamental, nervoso, irado em várias ocasiões, não sabia lidar com a situação e, ainda, culpava Dona Cema pelo mau comportamento dos filhos. Sofria de diabetes e tinha cãimbras terríveis nas pernas que o deixavam mais irritado. Comigo era um poço de paciência. Mas, com os outros, chegava a ser impiedoso. Batia, até.

    Mas, voltando ao casarão, a parte principal dava para o que hoje chamamos de viela. Na verdade, um beco sombrio e tortuoso, escorregadio e frio, que mais tarde, eu soube, era o que sobrou de uma estrada de pedras, construída pelos negros. Os muros das casas, de um lado e do outro, também foram erguidos com pedras pelos escravos a custa de muito sofrimento. Dificilmente, alguém se aventuraria por ali, de dia ou de noite.

    Contava-se  que  era  corriqueiro  nas  noites  frias,  de  lua cheia, ouvir o barulho de correntes arrastadas e gemidos dos escravos açoitados que empreendiam fuga e eram capturados pelos capitães do mato. E os feitores, a mando dos fazendeiros, botava todos, sem distinção de idade, de volta para a senzala a espera da punição certa. Presos aos pelourinhos que se multiplicavam na proporção do número de fugitivos, eram duramente castigados sem dó nem piedade, ao ponto de alguns não suportarem. Morriam atrelados aos pelourinhos e só eram recolhidos no dia seguinte. 

   O casarão era rico em portas e janelas de madeira. As portas, assim como as janelas, eram feitas de duas partes. Por dentro, uma ou duas travas, substituiam as fechaduras. O piso, de assoalho de madeira dominava os ambientes. Então, era impossível caminhar sem ouvir o rangido característico da madeira em atrito. Eu, curioso como qualquer criança, ficava horas brincando e olhando pelas fendas e o que se via era um buraco enorme e escuro. Os adultos diziam que lá havia tesouros escondidos pelos escravos, que em busca da liberdade, os usava para comprar a carta de alforria. O casarão do "véi Luiz", como conheciam o meu vô, era o maior da rua. 

   O casarão era composto de vários quartos, de diversos tamanhos, duas salas imensas, a dependência onde funcionava o armazém, que era provida de meia dúzia de portas de soleiras altas, ladeadas por janelas de fora a fora. O acesso a essa parte do casarão era precedido por um longo corredor e um salão que funcionava como depósito. As instalações eram completadas por uma cozinha grande e num dos cantos um fogão caipira, usado para preparar as refeições e dar concretude à culinária da minha avó Cema. Nos fundos, uma parte era reservada para o cultivo de hortaliças e do outro, um galinheiro sempre cheio.

    Fogão à gás, um luxo. Luz elétrica? Qual, nada! Eram os lampiões que dominavam as dependências, até certa hora porque consumiam muito combustível. O que se usava em grande quantidade eram as lamparinas à querozene. Quando a última era apagada, a escuridão total tomava conta, a imaginação de criança ganhava asas, até adormecer. O sono rico em sonhos deliciosos, mas às vezes medonhos, alimentado pelas conversas dos mais velhos sobre causos de assombração, de almas penadas, de arrepiar.

    Bem, numa dessas noites, coincidência ou não, tramas do destino, só estávamos nós dois, minha avó Cema e eu. Esperamos, em vão, a chegada de minhas tias Rose, Iria e meu vô. Parece que eles não conseguiram resolver o que precisavam na capital da Província Federal e não puderam retornar. A noite se aproximava rápido e vó Cema não disfarçava sua inquietação. Era a primeira vez que ficávamos sozinhos naquele lugar cheio de histórias tristes de medo e de assombração. Pois bem, vencido pelo cansaço, naquela noite, apreensivo, preferi ficar agarrado na saia de vó Cema, acompanhando seus passos, enquanto ela fechava portas e janelas, apagava lampiões e lamparinas (eu não entendia porque não poderiam permanecer acesos) e se recolhia ao seu quarto, eu junto pegando com força a barra da sua saia. Meus avós havia anos não dividiam a cama de casal porque vó Cema roncava muito e meu vô Luiz com diabetes, cãimbras nas pernas, sofria de insônia crônica (sempre achei que por isso ele era muito ranzinza, irritadiço) e não dava conta disso. Era muito comum ser acordado de madrugada com os gritos do meu vô implorando: "Cema, deixa de roncado mulher!". "Você quer me matar Cema, para com esse ronco!" "Cema, deixa eu dormir!" E olha que os quartos ficavam localizados nos extremos do casarão. Realmente, minha vó fazia muito barulho, roncava muito. Hoje, ela teria se livrado do problema devido ao avanço da medicina do sono. Naquela noite fiquei sentido falta dos brados do vô Luz e dos roncos da vó Cema porque...

   Mal começava  a  escurecer rapidamente,  ao  apagar  da  última lamparina, começamos a ouvir batidas em vários lugares do casarão. Inicialmente, achamos que eram as galinhas e os patos. Nada. Não eram as galinhas, nem os patos. Vi que vó Cema, não disfarçava sua apreensão, para não dizer medo, me olhava e colocava o dedo indicador nos lábios pedindo silêncio, como aquela enfermeira do poster que tinha nos corredores e quartos dos hospitais. Eu me agarrava na barra da saia dela e arregalava os olhos, mas não tinha coragem para perguntar o que estava acontecendo.

   Toc, toc, toc, toc... Corríamos para a porta principal e nada. Toc, toc, toc, toc... Voltávamos para o quarto, o último, da tia Rose e só o silêncio. Perturbador. Eu fazia menção de querer perguntar sobre o que ocorria e vó Cema repetia o sinal da enfermeira. Eu, com medo e não tinha vergonha, me agarrava com mais força na barra da saia da sua saia. Andávamos nas pontas dos pés para evitar o ranger da assoalho de madeira, mas era inevitável e, nesses momentos, ficávamos imóveis, petrificados, até ouvir a mesma batida persistente noutro aposento, como se alguém quisesse entrar.

   Toc, toc, toc, toc... agora, na porta do armazém. Toc, toc, toc, toc... na janela do quarto do meu avô. Toc, toc, toc, toc...  outra vez na janela do quarto da minha vó. Toc, toc, toc, toc... na janela do quarto da tia Iria. Ficávamos andando de um lado para o outro, em nenhum momento vimos alguém, ou a sombra de alguém.  Nada. Só o silêncio da madrugada fria, úmida e a lua cheia no alto. Ruído da respiração contida. Toc, toc, toc, toc.... Batidas abafadas, cadenciadas, como se alguém estivesse em apuros e desejasse proteção. Pensamentos sombrios. Frio. Lua cheia. Mêdo. Pavor. Desamparo. Silêncio. Toc, toc, toc, toc, toc...

    Seria humanamente impossível bater na porta do armazém e, em seguida, na janela do quarto da avó Cema, pois precisaria pular o muro do quintal, que era alto e dava na horta. Ficariam as pegadas como sinais da invasão nos canteiros que se estendiam de fora a fora. Além disso, era também preciso saltar outro muro para chegar ao galinheiro e passar pelo Baru, um cão enorme, branco, que dormia placidamente, e encontrar galinhas e patos barulhentos. Pelo muro da frente, alto, impossível porque era de difícil alcance. Todas as situações possíveis vinham a minha mente perturbada pelo medo, mas ao mesmo tempo, encontrava um pouco de conforto com a presença da minha vó Cema.

    Minha vó havia chegado no seu limite. Com os olhos arregalados, cansada de tanto andar de um lado para o outro por horas, com uma lamparina na mão esquerda, um facão enorme na mão direita e um dos olhos nas frestas, que deixavam escapar um raio do brilho da lua,. O que se via era aterrador: uma figura alta, coberta por um manto negro, maltrapilho, e uma cabeça coroada de cabelos abundantes e desgrenhados, com uma expressão pouco amigável. Vó Cema via a cena e retirava o olho imediatamente. Então, num arroubo de coragem, resolveu reagir. Gritava: "Quem é? Quem é você? O que você quer?" Logo em seguida, enfiava totalmente o facão pela fresta da janela e cutucava "aquilo" que nos metia um medo pavoroso. A resposta: a imagem permanecia inalterada, assim como o silêncio total e o suspense. Ouvia-se apenas o cacarejar de algumas galinhas que se incomodavam com os gritos de vó Cema.

   Eu torcia para o dia nascer, mas a noite parecia infinita. A lua começava a descer em direção ao horizonte, para dar lugar ao sol tão desejado. Toc, toc, toc, toc, toc... As batidas aumentavam de intensidade e ficavam mais espaçadas. Toc, toc, toc, toc, toc, toc... Na janela do quarto do vô. Em seguida, num átimo de tempo, nas portas do armazém para, logo depois, soar no quarto da tia Rose, no outro extremo do casarão.

    A tormenta durou a noite toda. O terror nos acompanhou e o medo foi nosso companheiro porque sabíamos que isso, até então, não havia acontecido. O dia clareou e os barulhos cessaram antes do sol despontar. Mesmo assim, não conseguimos pregar os olhos.

    Abrimos, vagarosamente,  as  portas  e  as  janelas  em  busca de rastros ou algum sinal e nada! Nenhuma marca. Nenhuma das coisas fora do seu lugar. Procuramos vestígios por todos os lados porque serenou bastante e o chão amanheceu molhado, mas nada. Nada que indicasse a presença de algo estranho naquela noite que pareceu uma eternidade. Ficamos dias e mais dias tentando compreender o acontecido e nada. Até hoje não conseguimos uma explicação plausível para o fato.

   Vó Cema, dias depois, revelou que, às vezes aparecia mais de uma figura, todas iguais e de aparência tenebrosa. Disse que só não falou para eu sobre isso na noite do desdito porque temia pela minha reação.

    Nunca mais dormimos sozinhos e nas primeiras noites depois do ocorrido, todos dormiam em estado de alerta, mas não voltou a acontecer.

     Ficou a impressão de que tudo não passou de um longo pesadelo. Felizmente!

     Eu acredito em assombração.

 

 Antonio Augusto é escritor nas horas vagas.

    

      

   

   

   

   

   

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