Leitores & Escritores
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Leia a coisa certa

 

*Flávio Paranhos

flavioparanhos@uol.com.br

 

"As grandes obras

são complexas e

nos obrigam a

assumir a perpectiva

do personagem"

 

Sempre fui cético quanto a uma crença do senso comum (pelo menos do senso comum intelectualizadso) de que ler torna as pessoas melhores. Não apenas por se tratar de afirmação elitista no sentido negativo da palavra, pois "melhor" aqui tem um sentido também moral, ergo, quem lê seria moralmente superior a quem não lê, mas principalmente por ser algo completamente desprovido de evidências que o sustente.

Até pelo contrário, se considerarmos a ponderação com precisão esteriotáxica de Stanley Fish, articulista do New York Times: "Se as artes e humanidades tornassem as pessoas melhores, os departamentos de artes e humanidades das universidades estariam repletos de pessoas eticamente melhores, o que não é o caso de jeito nenhum." E antes que algum professor de letras ou artes plásticas se arrepie comigo, note bem: não é que há mais canalhas entre vocês, mas, sim, é que os há tanto quanto nos departamentos de medicina, direito ou engenharia.

Mas eu dizia que não há evidências. Pois surgiram algumas. O artigo Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind Improves Theory of Mind, de David Kidd e Emanuele Castano, publicado na Science de outubro de 2013 traz um esperimento interessante, para simplificar, que o termo "teoria da mente" (jargão das ciências cognitivas) equivale à empatia, e que é a empatia a principal determinadora de um comportamento ético satisfatório, e considerando-se ainda que há testes validados para sua medição (sim, eu sei, muitos pressupostos, mas vá caminhando comigo), os autores observaram em seus voluntários de pesquisa que aqueles que leram obras de ficção "maior" tiraram notas maiores nos testes de empatia, e os que leram ficção "menor", não ficção ou nada leram tiveram notas menores.

Obras de ficção "maior" foram as de autores americanos vencedores de prêmios respeitados (National Book Award, por exemplo), além de alguns autores canônicos (Thecov foi um deles), e "menor" foram best-sellers do site da Amazon, entre outros. Conclusão? A leitura de boa literatura nos torna mais éticos? Não tão rapidamente. Os próprios autores reconhecem as limitações de seu estudo. Uma delas, a mais óbvia, é o curto prazo do efeito testado. Pode-se esar diante de um efeito de priming, o mesmo que nos torna mais gentis após ler um texto qualquer cheio de palavras positivas ou se estamos na frente de uma padaria cheirosa, algo também já demonstrado experimentalmente.

Mas, aí permanece a questão: sendo assim, por que as obras de ficção menor, também agradáveis de ler, não tiveram o mesmo efeito? Porque são previsíveis, permitem-nos absorvê-las com o  cérebro ligado no piloto automático. As grandes obras, por sua vez, são complexas e nos obrigam a assumir a perspectiva do personagem, entrando na sinfonia bakhtiniana para apreendê-los, portanto, exercitando nossa empatia.

Bom, agora que você chegou ao fim desta crônica, sente-se melhor?

 

Flávio Paranhos, Crônicas & Outras Histórias, jornal O Popular, Goiânia-GO, 5/2/2015.

 

 

 

 

 

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