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Pensar É Preciso
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Vidas secas

 

*Rogério Borges

rogerio.borges@opopular.com.br

 

"Durante tantas décadas

abusamos da água,

não a utilizando de

forma racional"

 

Fabiano não tinha escolhas. Fabiano nunca as teve em sua vida. Em uma jornada ingrata emortal com sua família, varou o sertão seco em busca de sobrevivência. Em certo momento, baleou a fiel cadela Baleia. Em outro, sua mulher fez do papagaio da família a refeição para seus filhos. O alagoano Graciiano Ramos traçou um retrato dramático e verdadeiro do pesadelo da seca nordestina e das hordas de desesperados que a estiagem prolongada sempre produziu na região. Assim também o fizeram Rachel de Queiróz, com O Quinze, e José Américo de Almeida, com a Bagaceira, outros dois clássicos do ciclo da seca, do regionalismo nordestino dos anos 1930.

Tal realidade, tão cantada em lamentos setanejos na sanfona de Luiz Gonzaga e Dominguinhos, tão presentes nos versos simples de Patativa do Assaré, tão delineados nas metáforas e metonímias de Ariano Suassuna, agora também é nossa, cá do "sul". Os retirantes de tantas décadas seguidas subiam num pau de arara, deixando famílias e histórias para trás porque não havia água na caatinga, porque as crianções morriam de sede no pasto rapado, porque a roça findou sob o sol ardente. Rumavam para o Sudeste, o Centro-Oeste, o Sul, atrás de trabalho e condições menos custosas de vida. A água, porém, também escasseou aqui. De certa forma, estamos vivendo uma situação com a qual os nordestinos, sobretudo do simiárido, já se acostumaram a enfrentar desde que nascem.

Talvez um dia essa nossa desgraça hídrica - crise é uma palavra um tanto amena para caracterizar o que está acontecendo e continuará a atormentar milhões de pessoas por um longo tempo ainda - seja decantada em forma de canções, romances, poemas. Talvez isso nunca aconteça, já que nossa ficha teima em não cair. Não é tão difícil assim encontrar gente lavando calçada com fartos esguinchos de mangueira, jogando água limpa fora sem remorso algum, não se preocupando nem um pouco em aproveitar a água da chuva. O desperdício continua a integrar nossa rotina e ainda achamos que o problema é coisa distante, no tempo e no espaço.

A realidade mudou e a história e a artre nos ensinam o que significa a falta de água. Isso não tem sido o bastante para promover uma real conscientização quanto ao problema. Parece haver um sentimento de invulnerabilidade em torno de quem se considera acima do fim desse recurso vital, que não pensa coletivamente e se mostra insensível à situação grave que enfrentamos. Gente quenão se identifica nem por um segundo com a pele esturricada de Fabiano, com o olhar perdido de retiranates que conheceram o sentido atroz de ter a garganta seca sem perspectiva de alívio.

Durante tantas décadas abusamos da água, não a utilizando de forma racional. Transformamos rios em esgotos a céu abertgo, soterramos as nascentes, desmatamos sem critério rompendo o ciclo do reabastacimento dos lençois freáticos, das chuvas, da umidade da terra. Agora vemos autoridados preocupadas com a possibilidade de racionamento de água, de comprometimento da geração de energia, com o desgaste político que terão de enfrentar diante de uma tragédia de tais proporções.

Graciliano Ramos, Taquel de Queiróz, José Américo de Almeida, Patativa do Assaré, Ariano Suassuna são tão bons de ler... Por que não os leram? Luiz Gonzaga transformou em hino a fuga da asa branca... Por que não o ouviram? Por que nunca aprendemos, meu Deus!?

 

Rogério Borges, Coluna à Margem, jornal O Popular, 5/2/2015.

 

 

 

 

 

 

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