Romance
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Os Filhos do Ódio e do Silêncio - romance

 

Antonio Augusto

 

O Começo

 

     O final da década de 50 foi surpreendido pela tomada de assalto da Baía dos Porcos, Cuba, pelas forças revolucionárias lideradas pelo guerrilheiro Fidel Castro e pelo médico-guerrilheiro Che Guevara, com um pequeno exército bem treinado e armado que desceu da Sierra Maestra, em 1959.

   Chegava ao fim, de forma dramática, a ditadura cruel, infame, de Fulgêncio Batista, apoiado incondicionalmente pelo Tio Sam. Num ataque fulminante, a guerrilha colocou o líder ocidental numa situação vexatória: como explicar a derrota de uma potência por uma ilha insignificante. Era pretensão dos EUA apenas manter uma base militar na ilha de Cuba. 

   O mundo estava em ebulição, o Bloco Ocidental liderado pelos Estados Unidos e o Bloco Oriental comandado pela extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS. Os países emergentes exigiam reformas, pressionados 3° Mundo. A sociedade reivindicava mudanças, principalmente no plano econômico. Era a Guerra Fria. Fronteiras fechadas. Meios de comunicação censurados. Parlamentos extintos. O medo imperava, a 3º Guerra Mundial era iminente. 

  Naquele início de noite do dia 6 de fevereiro de 1959 a Via Láctea se apresentava mais brilhante, anunciando um nascimento que tinha tudo para ser o grande evento do ano. Vultos, à distância, em um ponto distante do sol, se movimentavam num frenesi misturado com ansiedade e apreensão. Claro, a mãe mal deixava a infância, compulsoriamente, por causa de um "acordo" espúrio entre cavalheiros.

   No céu imenso, infinito, com milhões de pontos brilhantes, anunciando a morte de milhões de estrelas e, paradoxalmente, o nascimento de outras tantas, uma delas fazia um trajeto difícil porque naquele espaço não era permitido uma travessia em linha reta, era preciso se desviar de outros corpos celestes, sob pena de se chocar e ficar ali em meio a poeira celeste.

   Vez ou outra parava, rapidamente, para logo em seguida reiniciar a viagem. Em alguns momentos era evidente que procurava algo em algum planeta porque fora enviado para acompanhar um evento de grande importância. Sua pausas eram cada vez mais curtas. A viagem só era interrompida quando estritamente necessário. E quando sossegava um pouco, tinha-se a impressão de que escutava com extrema atenção algum sinal sonoro que lhe dava certeza da direção. Nesses momentos, brilhava tão intensamente que mais parecia uma estrela de quinta grandeza, que dava para aqueles vultos que se movimentavam nervosamente a visão de um sol, tamanho era brilho e a majestade.

   Em pouco tempo, estava pairando sobre aquela casa simples, de sala, quarto e cozinha, chão batido, terra vermelha. Ao pousar suavemente no telhado, ouvidos e olhos atentos a qualquer mudança na nuvem que envolvia o casebre, passando do escuro denso ao vermelho, ao prata fulgurante e, novamente para o escuro tão forte que mais parecia uma parede de aço impenetrável.

  O ser brilhante, até então icógnita, abriu suas asas alvíssimas, grandes, de envergadura impressionamente, que cobria a pequena casa sem o menor esforço. Era o Anjo Guardião encarregado de acompanhar o nascimento daquela criança tão especial.

   Enquanto isso, em Cuba, a plebe estava em festa e ignorava o que acontecia no resto do continente. Antes, a riqueza nas mãos de poucos. Agora, o pouco era socializado e foi-se configurando uma nova elite que passou a dominar todo o aparelho estatal. Em vigor, o silêncio absoluto ou a perseguição, a prisão, a deportação ou a morte. Movida pelo turbilhão de emoções, impulsionada pelo bloco soviético, por um instante todos pararam e se voltaram para um país mais ao sul da américa, batizado de Pau Brasil pelos seus colonizadores-espoliadores-escravocratas-de-terras-além-mar.

    Permaneceram quietos e em silêncio até que ouviram algo como se fosse um tapa, que ribombou por todo o canto, e em seguida o choro estridente de uma criança que parecia contrariada por ter sido incomodada no seu pequeno mundo quente e acolhedor. Parou de chorar e, por encrível que possa parecer, se sentiu feliz pela primeira vez porque aquele ambiente ao derredor se tornava pequeno para conter toda a grandeza dos seus sonhos.

    O ser angélico olhou longamente em direção ao azul do céu, suspirou tranquilo, abriu as asas estupendas alvíssimas e alçou vôo. Em direção ao infinito.

    Aliviado, o povo da Ilha de Cuba continuou a obra de reconstrução do pouco que havia restado do pequeno país.

 

 

A VIDA - Apenas Uma Promessa

  Uma mulher, vestida pobremente, com seus 50 e tantos anos que aparentava 80 primaveras mal vividas, alta, magrela, pele seca e marcada pelo tempo debaixo do sol causticante da antiga Comarca de Povo Feliz, ruminava uma massa escura  com cheiro forte e produzia saliva abundante que cuspia sem cerimônia num canto do quarto pouco servido. Havia apenas uma cama improvisada, de madeira, ladeada por uma cômoda pequena e carcomida pelo cupim, com meia dúzia de velas bruxuleantes, atirando nas paredes sem pintura e sem reboco figuras assustadoras que ganhavam vida e faziam movimentos ameaçadores. A d. Parteira - era esse o nome da mulher - estava acocorada e, com seus braços esqueléticos feito garras, afastavam as pernas daquela pobre criatura que gemia, soluçava e molhava as roupas maltrapilhas do corpo e da cama. Chovava baixinho. Era frágil e não passava dos 14 anos. Uma criança. Uma alma sofredora. Não tinha noção do que a esperava. Não tinha esperança. Desejava morrer tamanha a dor que assolava seu corpo de criança. D. Parteira, demonstrava total indiferença, acostumada que estava com aquele tipo de trabalho, reservado aos médicos, mas exercido ilegalmente para atender a base da pirâmide sempre mais, muito mais larga do que o topo, que usufruia  os serviços de saúde mais caros da rede pública. Além do mais, as autoridade da Província do Centro não estavam nem um pouco preocupadas com a pirâmide cada vez mais generosa na base.

    D. Parteira, vestida de panos gastos pelas inumeráveis vezes lavados e expostos ao sol para secar, portava um instrumento de uso exclusivo dos médicos que entrava em ação apenas nos casos de difícil solução, para preservar a criança e não garantir a vida da mãe. Tentava com esforço quase sobre humano arrancar pela cabeça a criança do útero da pobre infeliz que ainda não havia saído do casulo da infância.

    A criatura resmungava o que parecia preces. Mas, não deixava dúvidas de que eram urros como os de uma cadela raivosa, o suor em bicas empapava sua roupa feita de chitão e escorria pelo pescoço, passava pelos seios e braços desnudos, pernas... até cair no chão batido daquele quarto, na obscuridade.

    A criança-mãe gritava tanto que a natureza parou para ouvir seus berros que eram ouvidos e ribombavam como trovões na tempestade. Os vizinhos acorriam para tentar ajudar, mas eram barrados pelo Homem-Amigo-do-Pai que, como  sempre, estava ausente. Com uma arma de fogo que se assemelhava a metralhadora, esse Homem-Amigo-do-Pai foi encarregado de impedir a entrada de curiosos que se passavam por amigos, mais interessados nos métodos de D. Parteira, muito respeitada nas redondezas. Esses se afastavam assustados diante do tamanho do Gigante-Homem-Amigo-do-Pai, armado até os dentes e se mantinham à pequena distância, aguardando o desfecho do desdito.

    O silêncio  cheirava  a  morte  e  o  vento  frio  anunciava  uma tempestade de grande magnitude... "A natureza sofria dores de parto", segundo o livro bíblico Apocalipse do profeta João Evangelista. As pessoas contrariadas, que estavam de plantão a espera do parto, foram obrigadas a regressarem para suas casas.

._.

   O sol despontava no horizonte e os raios reverberavam como nunca. O ambiente fétido por causa da enorme quantidade de sangue coagulado que cobria o piso, as paredes esburacadas e sem pintura, a cama, os lençois esparramados por todos os lados. A criatura que se dizia parteira, exausta, adormeceu com o fórceps sujo de sangue nas mãos esquéleticas também cobertas de sangue.

    O entorpecimento de D. Parteira foi interrompido pelo grito, na verdade um sussurro quase inaudível, daquela mãe-criança. Acordou e de um salto viu a cena grotesca que havia protagonizado: a criança com um buraco de proporções assustadoras no crânio dava os últimos suspiros, a criança-mãe apenas conseguia liberar grossas lágrimas por onde corria todo seu sofrimento e sacrifício, em vão.

 

 

    

 Antonio Augusto é escritor nas horas vagas.

     

    

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